fusca amarelo

Noite. O espelho ali do banheiro é redondo e o instante é feito cosquinha infantil em canto de sala. Um fusca amarelo pousa em frente ao bar e acho bonito. O amarelo do fusca. O redondo do espelho. Todo esse silêncio.
Na televisão anunciam o Grenal e a televisão está muda. Eu peço uma cerveja, aceno uma noite, acesso um abraço, tateio um sorriso. Minha noite é só mistério e isso é tudo.

Acolho todas as velas acesas e sorrio para todas as superfícies dispersas. A noite. Há noite. A noite é toda forró, mas nem é. Não. Só pelo abraço, só… sabe? Pois.

Eu sorrio para todos os olhos que me enxergam. Assim, neste encontro de segundos entre o caminhar do banheiro ao salão. Da descoberta ao esquecimento. Sabe?
E eu nem tenho o que escrever. É que é essa minha mania de sair à noite só, de catar guardanapos de papel e caçar qualquer caneta em qualquer bolso só para conversar um pouco, assim, ainda em silêncio. Pois. Gosto. Mas quem é essa que gosta, nem sei.

O garçom tem blusa listrada e me cativa, ali. É porque tenho essa mania de gostar, assim, de espaço e tempo e cor e linhas e risos. De olhares. Versos tecidos em estampas multicolores.
Escuto a conversa da mesa ao lado e é essa uma mania minha também. Pois. Mas nem é aquela de ouvir e julgar. Não. Respeito é pulso. Sou mesmo é fascinada em ouvir intimidades. Delicadezas. “Inusitações”.Para nada. Falar. Para nada. Ouvir. Nada. Só estar. Sabe? Ali, entre o vestido florido daquela e o cabelo vermelho da outra.

E no palco o mar apresenta-se, pincela marés. E depois um pônei. Pônei? Sim, Pois.
A voz envolvente daquela, o toque ímpar daquele. A cerveja começa a tecer ardência. Dança em mim. E eu sigo aqui, na cadeira, imóvel. Com essa meia confusa, com esse dia que finda. Sabe?

A coisa mais suave, o plano mais não-escrito, o verso. O fusca segue na porta, pelo vidro dá para ver. Eu também sigo aqui, nada. Naquele levitar de acorde e nesta madrugada torpe.

A luz, verde.
Os olhos fechados para canto.
A fumaça.

Estar pelo estar, pela volúpia do tempo. Sabe? Pois.
Pois.

2 comentários

  1. Lindo texto, Genifer. Estou querendo te fazer um convite para um evento na escola Projeto. Enviei mensagem pra ti. Se puderes, dá um retorno ou me passa algum outro contato? Abraço Deborah

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