Vó, ontem… eu toquei um tambor.
Era dia, fazia calor, um jongo. Uma festa dessas que se dança para florir.
Ontem… a moça me chamou para o tambor. E eu sabia que esse era um chamado para dentro e para fora.

Ontem, vó, no mesmo dia que o tambor soou de minhas mãos seguido de uma palestra (que eu nem sabia que haveria) sobre ancestralidade no mesmo teto e no mesmo chão… ontem, vó, o meu pai me respondeu.

Já era noite, já fazia silêncio e eu sozinha estava. A pergunta eu já havia feito fazia uma porção de dias:
– Quem foi ela, pai? Quem foi ela, minha vó?
Veio ontem a resposta.
A resposta fez-me rolar choro por toda noite, vó. Eu não sabia. Por 33 anos eu não sabia, vó, que te carregava tanto em mim.

O próprio nome, sequer sabia: Geni Siqueira. Nome assim, que em mim vem entrelaçado em certidão e batismo. Geni. Com “g”.

Vó. Meu pai contou-me da família de 12 filhos onde brotaste. A caçula fora, né, vó? De 12. E nem mãe conheceste, que nasceste em morte dela.
Pai me contou.
Da tia Erotilde.
Da infância.
Da falta de.
Infância.

Pai me contou que teu pai ia para o campo e deixava-te lá, vó. Longe. Ocupado demais. E olha como as coisas giram: eu cresci com meu pai no campo. Longe. Ocupado demais.

Ele me contou que fugiste com o primeiro caixeiro viajante que passou – meu avô – não por amor, mas por fuga.
Fuga, vó. Que é coisa que eu faço até sem querer.

Ele me contou das agressões.
E eu tremi em cada verso.
Ele me contou da coragem tua no distanciar de vô
(em tempo aquele, tempo teu)
e a coragem, essa tua,
acho que trago como herança também.

Vó. Eu amanheci madrugada.
Sonhei contigo.
Que estávamos enfermas
e que buscávamos cura.

Vó. O pai me contou do peso demasiado em teus ombros e do cansaço inesgotável do teu maternar. E… olha… eu sei tanto do amor, e tão pouco. E no fundo sei que essa linha minha é linha nossa.

E, sabe, vó. Eu te libero. Eu nos libero. Em honra a tudo que foste e tudo que nossas filhas e filhos merecem ser, eu, Genifer Gerhardt Siqueira Dimpério. Eu, Genifer com “g”. Eu, que cá nada sou além de sequência de fio de tempo… nos libero. Escolho romper esse ciclo para que possamos viver o amor para além de um patriarcado doente ou de um matriarcado cansado demais e, por isso, doente também.

Em honra, vó, aqui faço promessa de instante. De busca por harmonia para além da fuga e da dor.

 

O jongo que toco é para dançarmos, vó.
Neste corpo que é o meu.
Neste corpo que é o teu.
E por todas e todos que ainda haveremos de parir.

São Paulo/SP, 08 de outubro de 2017.

2 comentários

  1. Nós mulheres temos que ser mais amorosas com as outras… machismo muitas vezes se aprende com a mãe

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