14 de agosto

Hoje é aniversário do meu pai. 14 de agosto. Eu sempre lembro, sabe? Eu sempre lembro.
A gente se distanciou 11 anos, sequer nos falávamos e… eu sempre lembrava. Eu sempre lembro. E eu sempre silencio. Sabe?

Meu pai foi para o Tocantins quando eu tinha 6 anos pois sonhava em criar búfalos e soube de terras possíveis por lá. Foi numa moto que no meio do trajeto resolveu não mais funcionar. Enfrentou asfalto, carona, caminhão, chão gelado pra dormir. Foi parar em Palmas com uma porção de gente sabendo das terras, das possíveis. Um monte de gente amontoada numa escadaria, cheia de sonhos e quereres e ali… no duro chão. Eu era pequena, eu não sabia, não. Eu sabia dos cartões postais do Amazonas que ele mandava para nós – eu e meu irmão mais velho. Minha mãe lia os cartões para nós, a letra era muito difícil, sabe? Pra gente. Parecia letra de médico, assim, torta e comprida. Eu lembro. Lembro da minha mãe dedicada a ler aqueles cartões, a entender aquelas letras. Lembro.

Lembro também das conversas ao telefone com sempre as mesmas brincadeiras dele. Sempre. Eu já fingia riso porque… sabe? Eu tinha crescido. Mas o meu pai, meu pai achava que eu ainda era aquela menininha que ele abanara distância.

 

Lembro do cheiro. Isso é estranho, não? Lembro que quando eu tinha uns 12 anos eu estava andando na rua e eu senti. O cheiro. Do meu pai. E eu virei brusco, bem brusco, reação involuntária, e lá ia o homem. Um homem. Não o meu pai. Um homem, qualquer homem, um cheiro. Ia lá longe, e me perguntei de onde, de onde, como eu lembrara daquele cheiro. Mas sim, em mim estava. Lembrei, virei.

Lembro que corpo de homem sempre foi mito pra mim. Olhar, sabe? Uma vez vi uma peça de teatro onde tinha um homem nu, um homem nu, um homem nu, e eu encarei aquele pênis como se nunca, nunca, nunca sabia que ali havia um. Assim. Sabe? Foi estranho. Eu tinha uns 15 anos. O masculino assim, encarado como desconhecido. Sabe?

Hoje é aniversário dele.
Eu nunca entendi ele muito bem, mas sempre entendi. Sabe? Da distância. O meu pai me ensinou desde cedo a lidar com a distância. Mas o meu pai… o meu pai também de uma forma torpe me ensinou sobre sonhos. Sobre querer. Também. Sabe?
A gente sempre pode ver de vários ângulos a mesma fatia de mistério. O meu pai lá longe eu poderia chamar de abandono, mas eu também posso chamar de criação feminina, de oportunidade de mais com minha mãe ter estado. Eu sei, um sol numa peneira. Eu sei. A gente faz isso com a gente pra não doer tanto, né?! Acho que sim. E eu me perdoo por isso, porque é o lugar que consigo dar a ele.

Hoje é dia 14. De agosto. Aniversário.

O aniversário dele às vezes caía no dia dos pais. Era horrendo o dia dos pais na escola com aquelas lembrancinhas e festas e chamados. Eu me escondia, mas às vezes nem. Nem dava. Um dia me puxaram pra ler na festa um poeminha de dia dos pais. Era um papel branco grande e a coordenadora pediu pra que eu lesse aquele outro poeminha, tão bonito, tão bonito te ver lendo, lê pra nós. Tinha muita gente. Era no pátio e tinha um monte de homens. Homens. Pais. E eu com aquele papel branco e grande e o final do texto dizia “e felizarda foi mamãe por casar com você”. Dia dos pais, sabe? Eu lembro de ter lido isso. Todo mundo aplaudiu, eu tinha o quê? 7 anos. 8 anos, talvez. Eu li e olhei pra minha mãe. Ela sempre soube falar com o olhar, e ela me abraçou com ele. Com o olhar. E eu agradeci. E saí. E saí.
E sigo saindo.

Ano passado eu visitei o meu pai, com filho fui pelo Brasil e cheguei lá, nas terras prometidas, sabe? E olhei pra ele. E vi só um homem, uma pessoa que acerta e erra na mesma proporção. E a gente tem tentado, sabe? Acho mesmo que esse ano, esse ano eu ligo pra ele. Hoje. Dia 14 de agosto, o dia do aniversário dele. Mas é que a distância faz a gente ver que tem coisas que se não estiveram, jamais estarão.

Ontem eu li uma despedida de uma amiga no leito de morte do pai dela. Ela disse “foi uma honra te ter tido como pai”. “Foi uma honra te ter tido como filha” – disse ele antes de partir. Sabe o quê é isso? Eu acho que nunca vou saber tão profundamente, sabe? Mas está tudo bem. E a gente tenta. E a gente tenta também com o menino, porque distância, distância também me carrega. Pode até ser genética, esta de correr mundo. Esta de ir atrás de sonho. E tudo bem, né?! Diz que tá tudo bem pra eu crer que está tudo bem. Aquele abraço de olhar da mãe no meio daquele monte de gente e palmas. A gente cresce, e tem coisa que cresce na gente. Igual proporção. E tem coisa de fora que vira repeteco de gerações. Sabe? Eu aqui, viajando, minha sina. A distância. E está tudo bem. Não está?
Está, está.

Um comentário

  1. Sim. Está. Está tudo bem! Somos todos diferentes entre os iguais! É nossas histórias se cruzam. E a cada linha, leitora reconhece escritora! Gratidão!

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