motorhome

Um homem compartilhou esta foto com a seguinte descrição:
“Estou me vendo nessa situação, vida tranquila só na boa!”
Tá. Achei de dizer. Ri. Acho que precisamos falar sobre isso.

Ponto primeiro: sobre sonhos.
Muita gente imagina-se nômade. Dizem que vem da nossa ancestralidade, do tempo que nômades éramos. Bem possível. Meu perfil de rede social é retrato disto: quanta gente, quanto querer. Quanto sonho exposto de andar “em vida boa” com um motorhome por aí.
Sei que aqui no Brasil há relativamente poucos, e a maioria do que há tem-se como luxo na mão de gente de muita grana. Tá. Verdade. Mas vamos falar de gente como a gente. Tá? Tá. Galera de pouca grana, mas sonhadora. Você já pôs no papel? Dá. Tá? Dá.

Nossa casa foi decisão que pus 6 anos antes de comprá-la. Tem muitas lojas de venda de novos e usados, sobretudo no sul do Brasil. Posso passar os contatos inbox. Mas todo sonho precisa de decisão. Tá? Tá. Se você não quer concretizar você não precisa, mas se você quer, se você precisa, você precisa definir data.

– Ahh, mas eu não sei. Como vou conseguir o dinheiro?

 

Ponto segundo: sobre atração.
Aqui vai ter gente discordando, eu sei. Entra numa parada meio invisível, e tem gente que não se dá bem com invisível. Tá. Você tem todo direito. E nenhuma verdade minha é maior que a verdade tua.
Mas
o que
te digo
é que as decisões atraem os caminhos.
E não o contrário.

É estranho? É. E passa pela materialização do querer também. Escreve em um caderno em um papel em um verso em uma coisa tua em um ritual teu. Não precisa expor pro mundo, mas expõe pra ti. E diz um dia, um mês, um ano. É estranho. Eu sei. Sei bem. E passa pelo acreditar. Invisível, né? Pois é.

 

Ponto terceiro: sobre motorhome.
Desmistificar, certo? Certo.

Um carro dá problema, uma casa dá problema. Aí você junta os dois em menos de 9 metros quadrados e o quê temos? Um lugar SEMPRE com problemas. Quando consertam o pneu que estava meio torto erram o buraco e teu cano da cozinha já foi. Quando resolve o vazamento do teto a água passa a empossar num outro ponto, porque você estacionou em um campo mais inclinado. Quando você finalmente acomodou suas compras no armário bem fechado com os elásticos você anda em um buraco, um só, e tudo está no chão.

Não, você não terá uma vida boa sem problemas. Tá? Tá. Você só vai mudar os problemas de lugar.
Acho pertinente falar disso porque a gente tem que incluir as merdas nos sonhos.

Por exemplo: você sabe como funciona um banheiro em um motorhome? Certo, vamos lá.
Em modelos tradicionais você tem 3 caixas de fibra de vidro. A primeira caixa carrega a água limpa que vai para as pias, chuveiro e vaso sanitário (se o modelo for com água). A água que desce das pias e chuveiro, por sua vez, vai para caixa de água servida. Temos aí duas demandas necessárias e contínuas: você precisa abastecer constantemente a caixa de água limpa (geralmente com uma mangueira) e você tem que liberar a água já utilizada em um local propício que possa receber coisas como sabonete, detergentes e shampoos. Então possivelmente neste momento você vai repensar a sua posição em relação a muita coisa, do uso da água ao uso dos produtos. Porque afinal em um banho de ducha de 15 minutos no seu apartamento você gasta em média de 135 a 243 litros de água. Por banho. Imaginou? Uma caixa d´água de um motorhome tamanho médio (como o meu) tem 150 litros. Agora imagine o tempo que você levaria enchendo uma caixa d´água todos os dias para tomar um banho confortável. Não, não dá pra deixar enchendo e ir fazer outra coisa. Ela transborda, e se enche muito.. bem, a caixa é fechada (afinal o carro anda) e se tiver muita água e sendo o buraco de escape pequeno… bum! Você não pode deixar. Você fica próximo. E isso vira tarefa semanal, às vezes 2 em 2 dias, 3 em 3.

(Aí, veja bem… se o professor da escola te diz para molhar bem o machucado do filho deixando correr a água do chuveiro em cima um tempo… você sabe que não é tão simples. Muita coisa não é tão simples. E não estou desmerecendo. Mas é bom que se saiba).

Bem, paramos na segunda caixa. E a terceira? Detritos. Cocô e xixi, mesmo.
Há dois modelos básicos de vasos. Tem um mais seco que você precisa tirar manualmente o compartimento com os detritos. Tem outro (como o meu) que é uma caixa embaixo do carro onde vai tudo pra lá.
E depois?
Você tem que tirar. Aqui, uma vez por mês da conta. Somos só eu e meu filho, assim é mais tranquilo. E como tira?
Você tem um cano embaixo, e você abre uma espécie de alavanca. Quando abre, você tem uma avalanche. Sim, bem cheiroso. Aguado. Tá? Tá.
Onde solta? Tem lugar propício. Não dá pra soltar na terra – dizem que pode causar contaminação no entorno. Não dá pra soltar no bueiro da rua porque tende a ser para água de chuva, não de esgoto. Então os pontos são poucos, mas há. Lugares específicos. Mas no mínimo uma vez por mês você precisa ir lá, e sim, pinga nas botas, e sim, você tende a sujar um pouquinho a mão, eca, eca, que cheiro é esse, cadê a vida boa que eu tracei…? Tá? Tá.

Tem a parte da energia elétrica que é outro perrengue, mas esse texto tá ficando grande demais. Se interessar posso falar mais, mas vou reduzir o assunto aqui.

 

Ponto quarto: não se iluda. Tudo no mundo é um tanto de prazer com um tanto de escarro. Tudo. Você abraça uma coisa e libera outra.

Porque depois de te explicar sobre o banheiro daqui eu te pergunto: a vida boa é aqui ou aí no apartamento, onde tudo tem-se pronto? Só pergunto, só abro brecha. Só incluo merda no sonho. Tá? Tá.

E volto a dizer: não estou desmerecendo. Eu amo viver nessa casa, eu amo ter só 9 metros quadrados para uma vida toda com uma criança de 3 anos. E eu não abro mão disso. Mas se escrevo é para que você, que sonha, possa sonhar em detalhamento. Em profundidade.

 

Ponto quinto, e um dos mais importantes: se você sonha ter um motorhome, não espere se aposentar.
Eu digo isso porque vejo muitos casais de aposentados portando seus motorhomes. Muitos! E vou falar honestamente: muitos me dizem que não dão conta. É tarde, percebe? Você tem a coisa, o carro/casa, mas não dá conta de lidar com tanto problema e perrengue que vem implícito. Que vem colado. Tudo bem se estamos falando de finais de semana. De viagens programadas. Mas se você quer vida assim, nomadismo… não, não espere tanto.

Os sonhos – esses habitantes nossos – precisam de datas que deem conta deles. De corpos que possam acompanha-los.

Não é só aposentadoria que está em jogo. São os corpos. São as energias de se lidar com tudo isso. São os quereres de agora, que depois podem (e possivelmente serão) outros, necessidades outras também.

 

E isso: desculpem o textão. Tá? Mas precisava. Muita gente chega aqui com mesmo querer. Muitos. E com muita ilusão disto como “vida boa” e “um dia, um dia!”. Tracemos também nossos dias. Tracemos nossos quereres olhando pra eles de cabeça erguida e encarando tudo que o envolve. A gente não pode agarrar tudo no mundo. Não pode. Mas algumas coisas, sim. E isso envolve, para além de tudo: querer.

Qual a sua prioridade?

Qual é, mesmo, o seu querer?

*foto de Nathália Miranda.

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